A Jacquerie foi uma revolta camponesa que ocorreu no Norte de França entre 28 de Maio e 24 de Junho de 1358, durante a Guerra dos Cem Anos. A designação deriva de Jacques Bonhomme, o nome com conotação paternalista dado genericamente a um camponês da região, como o nosso “Zé Povinho”. A revolta iniciou-se de forma espontânea, reflectindo a sensação de desespero em que viviam as camadas mais pobres da sociedade, depois da Peste Negra, numa altura em que a França se encontrava num vazio de poder e à mercê das companhias livres, bandos de mercenários renegados que vagueavam pelo país. As elites acabaram por esmagar a revolta menos de um mês depois, matando no processo cerca de 20,000 homens, o que viria a contribuir para o agravamento das condições demográficas do país.

Durante gerações, a nobreza viveu receosa que tais episódios voltassem a acontecer. No entanto, na memória popular, a Jacquerie é vista como uma série de massacres feitos pelos camponeses contra a nobreza. Na realidade, porém, os servos rebeldes estavam mais preocupados com a pilhagem, a comida e a bebida dos castelos do que com a morte dos seus ocupantes.

Ressentidos contra a falta de protecção e desencantados com o estatuto do nobre depois das derrotas humilhantes de Crécy e Poitiers, os camponeses revoltaram-se contra a classe dominante. A rebelião começou a 28 de Maio de 1358 na aldeia de St.Leu-sur-Oise, depois de uma reunião de camponeses. Os ânimos exaltaram-se, a indignação contra a classe nobre subiu de tom e os homens reuniram as armas que podiam e invadiram a casa do senhor local. A família foi assassinada e a propriedade incendiada. A violência propagou-se às aldeias vizinhas e dias depois o motim era generalizado, envolvendo milhares de camponeses em fúria. O cronista Jean Froissart registou mais de 150 propriedades destruídas nas regiões de Coucy, Soissons, Amiens e Laon, sem que houvesse intervenção contrária aos camponeses. Em vez de reagir, os senhores locais fugiram para as cidades próximas com as famílias, abandonando as suas casas e bens à pilhagem. O clero foi também afectado e alguns mosteiros e igrejas queimados.

No meio da anarquia que caracterizava o movimento, surgiu Guillaume Cale, um homem da Picardia com carisma e capacidade de liderança suficiente para influenciar os seus pares. Cale organizou um conselho e procurou estabelecer uma hierarquia militar nas hordas de camponeses, organizando logística e batalhões militares.

A 9 de Junho, a horda de camponeses de cerca de 9000 homens dirigiu-se para a cidade de Meaux onde se encontrava a família real, incluindo o Delfim e a mulher Joana de Bourbon, as filhas do casal e inúmeras senhoras nobres que haviam procurado protecção junto do regente. Os dois líderes da cidade juraram “defender a honra” das damas presentes mas não conseguíram oferecer resistência à ocupação da cidade pelos camponeses. A situação tornava-se mais desesperadora a cada dia e nem Cale tinha controlo sobre os seus homens.

É nesta altura que surgem o Captal de Buch e Gastão Febo, Conde de Foix, dois cavaleiros regressados de uma campanha na Prússia. Buch e Foix entraram na cidade com 120 homens e ocuparam a ponte que conduzia à cidadela. A horda de camponeses tentou forçar a entrada, mas a ponte impedia que fizessem uso da sua enorme superioridade numérica. O resultado foi a morte de centenas de Jacques e um dia de glória para os cavaleiros defensores. O evento motivou ainda o início de uma resposta da nobreza contra a Jacquerie.

Entretanto no Norte, os Jacques foram dominados pelo exército comandado por Enguerrand VII, Senhor de Coucy. A 24 de Junho mais de 20,000 camponeses haviam sido mortos e a região estava devastada.

Consequências

Depois da peste, fome e banditismo que tinham assolado a região, o principal tributo da repressão da Jacquerie foi em termos demográficos. Os campos férteis do Norte de França perderam ainda mais mãos para os trabalhar, o que resultou em mais fome e pobreza. A classe camponesa não foi a única afectada, pois sem homens para trabalhar as suas terras os próprios nobres acabariam por perder muito do seu rendimento. Em Paris, a liderança de Etienne Marcel ficou seriamente comprometida pelo seu apoio à revolta, tendo sido assassinado meses depois.

A Jacquerie